quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Que venham as Moiras...


Escolhas sendo feitas, caminhos sendo traçados, tudo em Arcádia tem um motivo. Tudo em Arcádia tem um preço. Minhas páginas por um momento pararam, congelaram o espaço tempo que percorria o Abismo. Algumas horas podem se tornar séculos, assim como séculos pode ser segundos passados. Minhas páginas voltavam a ganhar brilho e a Rainha parecia cada vez mais sombria. O Gato conseguira consolar aquela que estava à beira do Abismo e a Rainha ainda pensava nos desafios um dia lançados e retomados pelo andarilho. Mas assim como o ar roubado, o próximo passo pode roubá-lo de suas certezas e incertezas dos afins e dos enfim, e risos enigmáticos buscam a insanidade daqueles que as desafiam.

— Quem vem lá em seus passos alquebrados, em seu sorriso malicioso?
— Quem caminha pelo Abismo achando que está a fazer companhia a uma Rainha?
— Quem está tão curioso com os destinos que aqui um dia foram traçados?
Riam, ao circular o viajante que parara de respirar e que voltava como vindo de um pesadelo ao se ver cercado por três mulheres de idades diferenciadas.
A adolescente deslizava a face a face do andarilho, deixando suas mãos percorrer pelo corpo do jovem rapaz, deliciando-se ao provar o sorriso malicioso que ele revelara alguns momentos atrás, enlaçava-o com uma de suas pernas e fechava seus dedos aos cabelos dele.
A mulher já o observava, repousando a mão ao peito do rapaz, sentia as batidas de seu coração, com olhar sombrio começou a fincar suas unhas ao peito dele ao sorrir enigmaticamente. Parecia querer arrancar as verdades e as certezas que habitavam naquele coração que continha pureza e a inocência de um cavaleiro com destino em vão.
Já a senhora com seus cabelos descorados, mostrava sua idade no olhar ancião, algumas marcas da idade percorriam gentis e suaves na sua face. Seus olhos pareciam destrinchar os mistérios que aquele olhar do andarilho carregava. Mais pareciam garras a arrancar a alma pelo portal que os olhos se transformam.
— Pode escutar o bater das asas do Arcanjo que se encontra lá?
— Pode escutar ainda as palavras do Gato que não pisa cá?
— Pode saber por que a Rainha depois do espaço tempo tornou-se mais sombria em seus pensamentos?
O Arcanjo lá de cima observava as Moiras arrancando fragmentos daquele cavaleiro. Sabia o quanto elas tornavam as pessoas sombrias e arredias, pois aqueles que as encontravam, só achavam mais perguntas em seus destinos traçados. Poucos conseguiam arrancar as verdadeiras respostas e mesmo com tais respostas, a maioria dos poucos se arrependiam.
— Já pensou em aceitar o destino de sua vida?
— Já pensou que tudo isso pode não passar de um sonho?
— Já pensou que a Rainha pode estar apenas se divertindo?

As Moiras ainda tinham muito a arrancar e a Rainha desvencilhou seu olhar àquela que tinha o Gato como companhia.
— Sei quão pesado é seu fardo e sei o quanto se sacrificara para evitar que as Moiras lançassem ao mundo o que aí dentro habita – Colocou a mão suavemente ao peito daquela moça-menina e sorriu tristemente.
— É um fardo que conheço tão bem quanto você, mas em meu caso, ele está bem trancafiado e talvez seja isso que venha me consumindo – murmurou em um suspiro delongado.
— Não minha Rainha, sabe bem que não é esse fardo que está a consumindo – respondeu gentilmente a moça-menina.
— Creio que é o selo que colocaste em sua alma, que trancafia tal fardo. Pois sente falta do fardo que todos acham pesados. Você, assim como todos que trilharam o Abismo e que encontraram as Moiras, sabe o que elas cobram, pois elas são piores que o próprio diabo – ronronou o gato, sorrindo malicioso.
— Besteira o que diz, meu caro amigo gato, pois todos sabem o que acontece de fato. Nossa Rainha está cada vez mais sombria e ela é o futuro, o presente e o passado. Não há diabos no mundo de Arcádia, há algo mais malévolo que essa simples rotulação, isso é fato – gralhou o corvo em escárnio ao gato.
— Basta... As Moiras ainda estão apenas no começo de suas explorações à alma e aos sentimentos do cavaleiro andarilho e creio que nossa Rainha vá se interessar pelo que virá.
A Rainha sorriu e acariciou o Seanchaí, pois suas palavras eram verdadeiras. Ainda havia muito por vir e as Moiras estavam apenas mostrando suas garras. São com suas linhas que o cavaleiro deveria realmente se preocupar.