sexta-feira, 19 de julho de 2013

O Descomeço...

Aquelas palavras pareciam uma profecia ingrata, porém era a imagem do Gato que mais me interessava. Em sua forma enigmática e sobrenatural, ele se aproximava às costas da Rainha, murmurando em seu ouvido coisas que ninguém mais ouvia. O Corvo e o Falcão o respeitavam, assim como eles sabiam que o Gato os respeitava. Eram todos eles seres que compartilhavam algo com Arcádia, com a Beanshee que ali reinava. Aos poucos minhas folhas sorviam o sangue derramado, iniciando novos traços dos reinos Árcades que se mesclavam. Reinos estes que mostram a realidade dos contos de fadas, ou dos mitos propagados na oralidade dos Árcades, Trovadores e Poetas. Não há mais espaço para o romantismo idealizado nos tempos modernos, há apenas espaço para a realidade torpe do Lirismo Antigo, pois minha Rainha cansara de brincar. Cansara daquelas falsas esperanças que tentavam lhe ofertar.

Ela apenas observava as garras sujas do sangue e da essência que ao seu corpo retornara. A Rainha, com seus olhos vazios, murmurara:
— Houve um tempo que fora construída para ser a mais bela dentre as belas, com encantos que homem algum resistiria ao seu canto; às suas palavras, ao seu encanto.
O Gato observava a Rainha, curioso com as palavras que se seguiam...
— Porém seu corpo carregava uma maldição, a qual traria a ruína dos homens. Alguns diriam que seria sua curiosidade que quebraria o selo tão bem lacrado pelos deuses gregos árcades... Eu digo que fora a sua vingança que os lançou em tamanha ruína — A pele da Rainha sentiu um breve arrepio de um prazer sádico que a acompanhava.
— Mas, sua própria Vingança unida a Ira faria você perder a única coisa que você não queria perder...
O Corvo eriçou suas plumas, pois tal dom pertencia ao Reino Espiritual, do Abismo e dos Mortos.
— Lançara então um selo; forte o suficiente para roubar da humanidade a única coisa que os tornariam mais humanos e humildes; mais respeitosos com as forças que se aliam a Destino.
O Gato envolve a Rainha em um abraço, fechando os olhos e sorvendo aquelas palavras ditas em tamanha serenidade.
— Fora egoísta o bastante para torturar a humanidade ao proibi-los desse dom que parece uma maldição.
A Rainha encosta o rosto ao rosto do Gato. O Corvo e o Falcão se aproximam, ficando os três às costas da Rainha.
— Em sua suposta culpa, minha cara Pandora, trouxera mais sofrimento do que conseguira imaginar às pessoas que você tanto desejava proteger.
O Corvo tocou ao ombro do Gato, trazendo-lhe visões que antes lhe foram negadas.
A voz da Rainha se distanciava e o Gato podia ver um reino de promessas e devoção sendo destruídos por uma Esfinge, a qual  se contorcia e se transmutava em medos e inseguranças de passados fantasmais. O rei se transformara em um demônio sedento de lágrimas e sofrimentos, na busca de selos que desejava deslacrar. Um silvo agudo atingiu seus ouvidos e o Gato afastara seu corpo da Rainha com um forte desnortear.
O Falcão o observava sereno e curioso. Aquela ave de rapina que acompanhava os elfos negros rompera o elo por algum motivo misterioso, porém fora o toque da Rainha ao seu rosto que o fez ansiar...
— Tudo ao seu tempo...


Aquelas palavras mescladas a outras que o Gato deixara de escutar, agitaram minhas páginas. Arcádia nunca fora um reino apenas de elfos e fadas, mas um reino dentro de reinos que se aliam a outros tantos reinos. Uma extensão de realidades desconexas que anseiam pela alma e sangue, pois como bem o dizem os irlandeses, humanos que inspiraram meu nome e os motivos para que eu me diferencie de meu irmão mais velho, meus contos não são contos de fadas americanos.

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