quarta-feira, 24 de julho de 2013

Que nunca terão fim...

O tempo corria rápido em minhas páginas, talvez por urgência do que a minha Rainha estava a buscar, seu gesto brusco e inesperado pegara a todos de surpresa, até este livro que a tudo registra e relata. Arcádia estremece perante tal ato e vários seres desaparecem. O Vazio reina por um tempo com os anseios da opressão para ser pincelado aos poucos com as tintas inexploradas de uma história inacabada.

— Seanchaí, o que acontece? — o Gato clamou-me por uma explicação.
— Ela não tinha motivos para isso! — O Falcão silva decepcionado com o que ocorrera.
Porém, o Corvo se mantinha em silêncio espreitando o tempo e a solidão que o desatinam em um gargalhar intenso e repentino.
— Não perceberam? Nossa Rainha está a pensar... O Gato conhece grande parte dos reinos de Arcádia. Conheceu a Pandora e sabe os pecados que ela cometeu ao manipular as linhas do Destino sem pensar nas consequências de seus atos.
O Corvo rodeava seus colegas e relembrava de um "Nunca Mais" recitado em tempos abissais.
— Nunca mais! Nunca Mais! NUNCA MAIS! — O Corvo ria ao recitar tais palavras.
— Creio que nosso amigo Corvo tenha enlouquecido mediante ao vazio — ronrona o Gato para mim.
— Creio que deva acrescentar a Rainha em seu comentário — o Falcão apruma as penas, imaginando como sairiam dali.
— Creio que devam tomar mais cuidado com suas palavras, pois o Corvo não enlouquecera; tão pouco nossa Rainha soberana. — Murmurei enquanto as minhas linhas ainda eram escritas.
Eu bem sabia que muitos reinos foram esquecidos em rompantes como este... Assim como ocorrera com meu irmão mais velho, com a caixa de Pandora e tantos outros mais que possuem um resquício da alma de minha senhora...
O Corvo limpava os olhos de lágrimas fugidias do riso que até pouco o dominara. Recuperava o fôlego e, mantendo uma forma quase humana, sentara-se a frente do felino que era quase uma resposta a tudo aquilo.
— Tudo que acontece tem um motivo. Sempre teve! A vida é um ciclo de páginas que são escritas, reescritas e rabiscadas.
O Gato se sentava a frente do Corvo e tentava compreender aquele novo enigma.
— Porém, muitos escrevem, poucos são os que conseguem reescrever e raríssimos são os que conseguem rabiscar um ciclo de páginas de uma vida.
— Sabe por que recito tanto as palavras Nunca Mais? — o Corvo pergunta ao Gato.
O Falcão irritado com todo mistério que o Corvo os envolvia resmungou:
— Porque nunca mais encontrará a pessoa amada, por ela se encontrar no Reino dos Mortos.
O Corvo volta a rir com os dizeres do Falcão.
— Não, quem sofria desse mal era um escritor que pensava que o Corvo era um emissário da amada que se encontrava no Reino dos Mortos e ele apenas o alertava que nunca mais tal escritor veria a mulher amada — minhas folhas farfalham com a impaciência do Falcão.
— Há algo mais nessas palavras, pois elas também me pareciam com as palavras da Rainha ao dizer que não havia mais espaço para o amor em seu coração — o Gato ronronou baixo — ou até mesmo com as palavras de Pandora de que ela devia ter aprendido.
O Corvo observava o Gato com maior interesse...
— Diga-me Gato quão grande fora o estrago que Pandora causou em seu coração?


O Gato parece surpreso com aquela pergunta feita pelo Corvo repentinamente, pois ele acompanhara Pandora em apenas alguns passos, no momento em que ela buscava compreender seu próprio ser e depois quando esta vira o tamanho do estrago que causara a todos que lhe rodearam. A pergunta poderia parecer cruel, mas os últimos momentos de Pandora foram entregues à Rainha pelo próprio Gato, não por uma vingança, mas sempre por algo mais "que nunca terá um fim"...

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Nas linhas do Destino...

Em meu último capítulo, Gato, Falcão e Corvo pareciam brincar de Gato e Rato nas conversas que mantinham perante a Rainha, porém minha soberana, mesmo com seu coração vazio, observava os traços rabiscados no Abismo. Pandora rompera várias linhas escritas por Destino, talvez por não saber o que queria em sua vida ou por temer seus próprios demônios inexplicáveis. Eu ainda podia presenciar a Rainha exaurida de sua última viagem no espaço tempo, mas sabia que tempo era algo que ela não possuía; não tanto quanto ela realmente queria. Ela escutava as palavras do Gato e sabia que ele ansiava cada vez mais pelas histórias, as quais ele não presenciara por causa de Pandora. Eu poderia interromper as minhas linhas, mas confrontar minha soberana em momentos como estes, não me seria de grande valia.

— Os humanos costumam dizer que com grandes poderes, vem uma grande responsabilidade — a Rainha murmura baixo interrompendo o debate que mantinha continuidade.
Por um momento, para eles, era estranho vê-la observando o espaço vazio a frente, como se a admirar alguma coisa que eles não podiam enxergar. A curiosidade despertava neles diferentes sensações, fazendo-os esmiuçar seus olhos à medida que a Rainha deslizava os dedos ao ar.
O Falcão tinha uma estranha sensação, pois da última vez que observara isso, a Rainha e Destino negociavam o apagar ou o modificar de algumas de suas lembranças, e isso, o incomodava.
— E na irresponsabilidade do uso de tais poderes, deuses caíram ou deixaram de existir, pois o inexorável ceifa tudo que se torna indesejável. — Silvou baixo o Falcão, tentando alertar a Rainha sobre seus próximos passos. Porém, tal aviso parecia mais uma ameaça velada que fora respondida com um sorriso.
— Destino não ceifa tudo que se torna indesejável. Na verdade ele não costuma interferir naquilo que já fora traçado. O livre-arbítrio é apenas vários caminhos traçados, mas já calculados — ela toca em um ponto do ar no qual a ponta de seus dedos sofre uma pequena pressão.
— Você não o faria! — As plumas do Falcão se eriçam e o temor toma conta dos olhos do Falcão.
Ela puxa o ar com um sorriso malévolo e sombrio em seus lábios, murmurando em uma serenidade obscura para os outros dois amigos: — Nunca mais me ameace.
A Rainha solta o ar e o Falcão se encolhe em seu terror.
— Perdoe-me minha Rainha, não fora esta a minha intenção.
O Gato curioso se aproxima do local, tentando desvendar o que ali acontecera, mas nada conseguira tocar ou sentir para saber o temor que ao Falcão acometera.
— Pandora... — sussurra o Corvo ao Gato — por não saber bem o que queria, brincava com as linhas do Destino.
— Suas palavras cometiam o sincericídio e por causa disso, ela afastou muitos que queriam ser mais que amigos — O Falcão tentava se recuperar do momento que o aterrorizara.
O Gato a tudo escutava, conhecia parte daquele mito, o Corvo, o Falcão e a Rainha desapareceram e o Gato via Pandora calada. Seu reino fora vasculhado e a caixa se encontrava aberta, vazia, não havia mais nada.
— Antes eu não tivesse mexido. Como és cruel comigo!
O Gato não conseguia ver o dono daquela voz, porém reconhecia a essência daquele ser. Sim! Era a mesma que havia revirado outro reino esquecido.
— Se não aguentava o dom da visão, não deveria por ela ter clamado! Desejava tanto a liberdade e eu lhe dei! Dei para que? Apenas para lhe ver me amaldiçoando e a usando para seus próprios intuitos. — Pandora vociferava...
— Eu devia ter aprendido! Devia ter aprendido!
Ela se culpava, querendo arrancar a dor de seu peito...

— Gato! - A voz vinha do gralhar do Corvo que o segurava próximo ao chão — Vejo que ainda pertence ao reino dos vivos, apesar de que você está mais para o Reino dos Mortos.
O corvo ri baixinho, dando pequenos tapas ao ombro do Gato. A Rainha parecia observar outro ponto no ar. Seu cenho franzido mostrava que ela não estava gostando do que ali enxergava.

— Ah, minha doce Pandora! Quantas linhas mais terei que observar? - Murmurou a Rainha cerrando o punho e puxando bruscamente algo que não se encontrava lá.

domingo, 21 de julho de 2013

De um Recomeço...

O Gato ainda tentava espantar aquele desnorteio que o silvo do Falcão causara em sua alma e mente. A Rainha sorria e deixava de observar que fim teria levado os restos mortais do Andarilho, até porque havia outros visitantes que perambulava no Abismo. Alguns como espectros perdidos, outros como meros observadores, mas ainda havia aqueles que moviam peças para o novo recomeço do descomeço. Em outros reinos clamariam como as linhas de Destino, o inexorável senhor das histórias que foram, são e serão contadas; já aqui em minhas páginas, o Destino se entremeia aos pensamentos de minha Rainha, tomando rumos inesperados ou quem sabe esperados, rumos estes que voltam em ciclos, pois as páginas não devem ser encerradas enquanto há um prisma não visitado.

— Não tente se livrar do desnorteio, meu caro amigo Gato, pois se ele ainda o persegue é porque há muito a ser visto em sua mente. - gralha o Corvo momentaneamente.
O Gato grunhe do fundo de sua alma mostrando suas presas para o Corvo.
— Como se eu não conhecesse o nosso dom da visão... Pandora também o possuía, mas era uma garota perdida... O que você puxou do Reino dos Mortos? Diga-me! — Vociferou o Gato à ave de plumagem negra como o Abismo.
— Apesar de caminhares no Abismo, sabe bem que seu Reino é dos Mortos, meu estimado felino. O que lhe mostrei é apenas uma parte de algo que não houve um fim - O Corvo crocita baixinho tomando a forma de um ser tão enigmático quanto o Gato.
— E quanto mais você lutar com o presente que o Corvo quer lhe dar, mais fortes serão suas visões - Silva o Falcão com desdém, já que ele não gostava de ver a balança pender tão desequilibrada daquele jeito.
A Rainha então se aproxima, agora com um olhar sereno e observador. O silêncio em seus lábios pareciam mais longos do que o de costume, deixando os pelos do Gato um tanto quanto eriçados.
— Acabe com isso — o Gato ronrona tentando se controlar e mesmo sem mover os lábios ele podia escutá-la.
"Não é isso que deseja, meu estimado Gato. Jamais fora isso que desejara"...
A Rainha respira fundo deixando seu rosto tão próximo ao do Gato que ele não pode evitar...
Sua visão nublara, enquanto seu coração acelerava.
O gato reconhecia aquele Reino, ele podia ver o quanto ele fora revirado por conta das cartas oras amassadas, ora rasgadas. Havia resquícios de ódio e incompreensão; dúvidas geradas por passados que não pertencera ao qual causara tamanho estrago. Ele podia sentir que aquela presença fora a outro reino; um reino imparcial em grande parte do tempo; o Gato chegou a ouvir rogares de maldições, os quais pareciam...
Um silvo e mais uma vez era interrompido, antes que sua visão alcançasse tudo o que estava escondido...
— Por que interrompe desta vez, ave do Reino Espiritual?


O Gato não percebia em seu próprio respirar, que tanto ele quanto a Rainha exauriam suas forças naquele breve passear. As visões, em Arcádia, são viagens no tempo e no espaço. Alguns se perdem e ficam mergulhados para sempre nessas visões; outros perdem suas vidas e não percebem que isso lhes ocorreu e alguns poucos viram páginas deste humilde livro que tenta tudo lhes contar.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

O Descomeço...

Aquelas palavras pareciam uma profecia ingrata, porém era a imagem do Gato que mais me interessava. Em sua forma enigmática e sobrenatural, ele se aproximava às costas da Rainha, murmurando em seu ouvido coisas que ninguém mais ouvia. O Corvo e o Falcão o respeitavam, assim como eles sabiam que o Gato os respeitava. Eram todos eles seres que compartilhavam algo com Arcádia, com a Beanshee que ali reinava. Aos poucos minhas folhas sorviam o sangue derramado, iniciando novos traços dos reinos Árcades que se mesclavam. Reinos estes que mostram a realidade dos contos de fadas, ou dos mitos propagados na oralidade dos Árcades, Trovadores e Poetas. Não há mais espaço para o romantismo idealizado nos tempos modernos, há apenas espaço para a realidade torpe do Lirismo Antigo, pois minha Rainha cansara de brincar. Cansara daquelas falsas esperanças que tentavam lhe ofertar.

Ela apenas observava as garras sujas do sangue e da essência que ao seu corpo retornara. A Rainha, com seus olhos vazios, murmurara:
— Houve um tempo que fora construída para ser a mais bela dentre as belas, com encantos que homem algum resistiria ao seu canto; às suas palavras, ao seu encanto.
O Gato observava a Rainha, curioso com as palavras que se seguiam...
— Porém seu corpo carregava uma maldição, a qual traria a ruína dos homens. Alguns diriam que seria sua curiosidade que quebraria o selo tão bem lacrado pelos deuses gregos árcades... Eu digo que fora a sua vingança que os lançou em tamanha ruína — A pele da Rainha sentiu um breve arrepio de um prazer sádico que a acompanhava.
— Mas, sua própria Vingança unida a Ira faria você perder a única coisa que você não queria perder...
O Corvo eriçou suas plumas, pois tal dom pertencia ao Reino Espiritual, do Abismo e dos Mortos.
— Lançara então um selo; forte o suficiente para roubar da humanidade a única coisa que os tornariam mais humanos e humildes; mais respeitosos com as forças que se aliam a Destino.
O Gato envolve a Rainha em um abraço, fechando os olhos e sorvendo aquelas palavras ditas em tamanha serenidade.
— Fora egoísta o bastante para torturar a humanidade ao proibi-los desse dom que parece uma maldição.
A Rainha encosta o rosto ao rosto do Gato. O Corvo e o Falcão se aproximam, ficando os três às costas da Rainha.
— Em sua suposta culpa, minha cara Pandora, trouxera mais sofrimento do que conseguira imaginar às pessoas que você tanto desejava proteger.
O Corvo tocou ao ombro do Gato, trazendo-lhe visões que antes lhe foram negadas.
A voz da Rainha se distanciava e o Gato podia ver um reino de promessas e devoção sendo destruídos por uma Esfinge, a qual  se contorcia e se transmutava em medos e inseguranças de passados fantasmais. O rei se transformara em um demônio sedento de lágrimas e sofrimentos, na busca de selos que desejava deslacrar. Um silvo agudo atingiu seus ouvidos e o Gato afastara seu corpo da Rainha com um forte desnortear.
O Falcão o observava sereno e curioso. Aquela ave de rapina que acompanhava os elfos negros rompera o elo por algum motivo misterioso, porém fora o toque da Rainha ao seu rosto que o fez ansiar...
— Tudo ao seu tempo...


Aquelas palavras mescladas a outras que o Gato deixara de escutar, agitaram minhas páginas. Arcádia nunca fora um reino apenas de elfos e fadas, mas um reino dentro de reinos que se aliam a outros tantos reinos. Uma extensão de realidades desconexas que anseiam pela alma e sangue, pois como bem o dizem os irlandeses, humanos que inspiraram meu nome e os motivos para que eu me diferencie de meu irmão mais velho, meus contos não são contos de fadas americanos.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Caem as Cortinas

Minha Rainha brinca com o tempo enquanto tudo parece mover-se na distopia do Destino. Parecia cruel sentir as garras das Moiras rasgando os sonhos incrédulos do andarilho, e inumanos vê-los ainda a buscarem a inquietude humana de ocupar o vazio de um coração. Eu sentia as linhas se agitarem furiosas em minhas páginas à medida que Kronos e Kairos rasgavam o tempo com suas garras, assim com as sentia parecerem ansiosas no aguardar da presença de Karonte em sua barca. Porém, eu sabia que Karonte possui várias formas, sendo algumas delas agradáveis e outras desagradáveis. Karonte poderia aparecer através das asas de um Arcanjo ou no corpo de um Cavaleiro Negro, pois a Morte sabe como alimentar falsas esperanças. O Falcão, o Corvo e o Gato provam isso em suas palavras, entretanto, para se dar conta disso, muitos o descobrem quando é tarde demais.

— Conte-nos, que bons ventos Arcádia nos sopra meu caro Falcão dos Elfos Negros? — Gralhava o Corvo sedento por notícias.
O Falcão descansou suas asas e brevemente abaixou sua cabeça em respeito à Rainha de Arcádia.
— Creio que devias perguntar ao Gato, já que ele sabe mais do que aparenta, no que mantém suas falas enigmáticas aos que mergulham no Abismo. — Silva o Falcão, com certo desprezo — Os Elfos Negros à Arcádia retornam para avisar que suas andanças serão sazonais.
— E o Falcão reclama de minhas falas enigmáticas — ri o Gato de forma baixa.
A Rainha, porém, nada fala a respeito das alfinetadas do Gato, ela bem o sabia que as andanças seriam sazonais, antes do retornar do Falcão.
— Talvez... — se aventura a menina-moça que logo interrompe o pensamento.
— Não há talvez... — Murmura o Corvo, olhando fundo aos olhos da menina.
— O Abismo possui seus meios — murmura pensativa a Rainha, observando Karonte se aproximando de sua vítima.
O Gato observava a Rainha e sentia a preocupação da menina que mordia os lábios um pouco mais atrás.
— Oneiros o avisou, não é mesmo, meu estimado Gato? - A Rainha observava os fragmentos que se despedaçavam, cada qual aos seres que ali aguardavam.
O Gato sorria, tomando forma de um ser mais enigmático, fazendo o coração da menina-moça disparar em descompasso.
— Há tanto de ti na Rainha... — o Gato ronronava envolvendo a menina - Mas há tanto da Rainha que me envolve...
— Ah! Minha adorável Pandora, como foi interessante vê-la abrindo sua caixa aos olhos de um Rei Troll... — Os olhos do Gato enegreciam a medida que suas presas cresciam...
O Corvo esmiuçava os olhos, sabendo os motivos de o Gato estraçalhar a alma de Pandora, enquanto o Gato olhava o Andarilho que tinha sua alma estraçalhada pelas Moiras...
— Não há espaço... Para mais nada...

O Gato ria de maneira sombria, junto aos risos das Moiras que ali se entretinham.
A essência de Pandora voltava ao corpo da Rainha que sempre afrontou a alma dos mais fortes. Seria um fim às minhas linhas? Eu sabia que não, ao sentir as carícias em minhas linhas.
— Sempre será um descomeço... — Gralhou o Corvo...
— De um recomeço... — Silvou o Falcão...

— Que nunca terá um fim... — Ronronou o Gato...