Algo no jovem rapaz pulsava e exalava em seus poros que o Abismo deixava fluir como um murmurar desolado ou um pensamento que antes ficava guardado, mas para aquele lugar, nada deve ficar escondido e assim o Abismo me revelou como eu era visto por aquele que lá adentrou. Sim, o Gato estava certo na citação de Nietzsche, quando o Abismo é capaz de adentrar a alma de alguém que o perscruta e lá estava o respirar daquela alma que um dia sentira falta de meu antigo irmão e que hoje clama por minhas linhas. Quantos mais faeries se espalham pela planície terrena, com seus lábios silenciados clamando para que as minhas linhas jamais se tornem a silenciar? Talvez as respostas morem no profundo Abismo ou nas mãos que me carregam e dedicam suas carícias a todas as criaturas de Arcádia. Acompanhem-me em meus escritos, pois o Gato deseja mais uma vez falar.
Minha cauda balançava devagar, quase imperceptível ao olhar. Olhava de soslaio para o aventureiro que mantinha seus braços cruzados. Indeciso em seus passos, talvez ele não soubesse que aquela posição que agora se encontrava, era uma das mais defensivas que sequer podia imaginar. Sim, pois no Abismo, devemos guardar o peito de qualquer corte; devemos proteger o coração.
— É difícil caminhar, quando o Vento não se encontra por cá. Vento traiçoeiro, que brinca e murmura; que encanta lépido e trigueiro e que nos faz rodopiar. Você gira, gira e o mundo dá voltas, mas teria realmente dado tantas voltas ou teria ficado no mesmo lugar? Arcádia se transforma e se molda, faz de conta que é outro lugar.
O Cavaleiro o acompanhava e isso era importante, pois no negrume que se estendia, era importante saber aonde pisar.
— Sinto falta da Floresta de Espinho, pois ela sempre esteve lá. Disse-me uma vez a Rainha que apenas os caminhos mais árduos é que fazem compensar. Sabes por que ela me disse uma vez isso? - sorri faceiro, seguindo aos poucos com meus passos e caminhos tortuosos apresentei para quem quisesse continuar.
— Porque os caminhos mais fáceis são das vitórias imaginárias. Vitórias as quais trazem o martírio. Que trazem a derrota que nunca deveríamos desejar. Por isso sempre gostei da Floresta de Espinhos.
Por um momento farejei o ar e meus olhos contemplaram uma superfície que refletia meu olhar. Sorri e me servi daquela água. Esperei que o cavaleiro fizesse o mesmo e me espreguicei em meu contentamento.
— Talvez tenhas encontrado o Corvo. Ah! Que belo mensageiro ele é, pois carrega em suas asas um sarcasmo sádico, daquele que perturba a mente, abrindo fendas abismais nos muros que protegem os corações inocentes. Ave de mau agouro aquela... Ela é capaz de confundir uma mente...
Continuei meu caminhar, mostrando caminhos difíceis para o cavalo que estava a acompanhar.
— Talvez o falcão devesse ter te avisado para que não entrasses no Palácio. Pobre criatura majestosa aquela, plana alta e voa tão rápida, mas ainda faz parte de um jogo maior... Mensageiro da morte premeditada; instiga para que se siga à frente, quando nada mais espera que um bom sangue seja derramado. Ave de rapina mortífera, ave dos Negros Elfos de Arcádia. Espero que não a tenha encontrado, mas sei que a encontrou, ou não estarias aqui - ri divertido, mudando bruscamente para outro lado.
— Cuidado. Não se adiante de uma vez, ou poderá se perder e nunca mais irá se encontrar.
Parei mais uma vez para contemplar o Abismo e Túmulos se erguiam diante de nossos olhares. Fúrias sorriam e manipulavam os destinos de outros que ali se encontravam. Uma Besta, uma Moça e outro Gato. Cordas que se rompiam e tudo desaparecia... Um momento que se perdia, ao que suspirei.
— Cada vida possui milhões de caminhos que se encontram aqui no Abismo. Cada decisão te levará para algum lugar e a decisão que não tomaste seguirá seu percurso, cumprindo o destino que deveria ter seguido. Cada ação, por mínima que seja, faz parte de algo...
— Então jamais um esforço será inútil da parte de quem se dedica a qualquer ato que seja... A vida é carregada de novidades - murmurou a Rainha, deslizando levemente o indicador ao lábio, ela falava e o Gato a ouvia. O Abismo respirava e crescia, criando caminhos; criando labirintos. Vidas que ali presenciavam dos quatro cantos de Arcádia, e quem buscava as páginas que se escreviam.
— Cada vez mais eu a admiro, minha Rainha. - murmurei em minhas páginas; por ela erguer mundos e por sentir os corações...
— Você é mais que um livro, Seanchaí... Assim como seu irmão.
E assim senti um aperto ao coração da Rainha, assim como o Gato sentiria...
Minha cauda balançava devagar, quase imperceptível ao olhar. Olhava de soslaio para o aventureiro que mantinha seus braços cruzados. Indeciso em seus passos, talvez ele não soubesse que aquela posição que agora se encontrava, era uma das mais defensivas que sequer podia imaginar. Sim, pois no Abismo, devemos guardar o peito de qualquer corte; devemos proteger o coração.
— É difícil caminhar, quando o Vento não se encontra por cá. Vento traiçoeiro, que brinca e murmura; que encanta lépido e trigueiro e que nos faz rodopiar. Você gira, gira e o mundo dá voltas, mas teria realmente dado tantas voltas ou teria ficado no mesmo lugar? Arcádia se transforma e se molda, faz de conta que é outro lugar.
O Cavaleiro o acompanhava e isso era importante, pois no negrume que se estendia, era importante saber aonde pisar.
— Sinto falta da Floresta de Espinho, pois ela sempre esteve lá. Disse-me uma vez a Rainha que apenas os caminhos mais árduos é que fazem compensar. Sabes por que ela me disse uma vez isso? - sorri faceiro, seguindo aos poucos com meus passos e caminhos tortuosos apresentei para quem quisesse continuar.
— Porque os caminhos mais fáceis são das vitórias imaginárias. Vitórias as quais trazem o martírio. Que trazem a derrota que nunca deveríamos desejar. Por isso sempre gostei da Floresta de Espinhos.
Por um momento farejei o ar e meus olhos contemplaram uma superfície que refletia meu olhar. Sorri e me servi daquela água. Esperei que o cavaleiro fizesse o mesmo e me espreguicei em meu contentamento.
— Talvez tenhas encontrado o Corvo. Ah! Que belo mensageiro ele é, pois carrega em suas asas um sarcasmo sádico, daquele que perturba a mente, abrindo fendas abismais nos muros que protegem os corações inocentes. Ave de mau agouro aquela... Ela é capaz de confundir uma mente...
Continuei meu caminhar, mostrando caminhos difíceis para o cavalo que estava a acompanhar.
— Talvez o falcão devesse ter te avisado para que não entrasses no Palácio. Pobre criatura majestosa aquela, plana alta e voa tão rápida, mas ainda faz parte de um jogo maior... Mensageiro da morte premeditada; instiga para que se siga à frente, quando nada mais espera que um bom sangue seja derramado. Ave de rapina mortífera, ave dos Negros Elfos de Arcádia. Espero que não a tenha encontrado, mas sei que a encontrou, ou não estarias aqui - ri divertido, mudando bruscamente para outro lado.
— Cuidado. Não se adiante de uma vez, ou poderá se perder e nunca mais irá se encontrar.
Parei mais uma vez para contemplar o Abismo e Túmulos se erguiam diante de nossos olhares. Fúrias sorriam e manipulavam os destinos de outros que ali se encontravam. Uma Besta, uma Moça e outro Gato. Cordas que se rompiam e tudo desaparecia... Um momento que se perdia, ao que suspirei.
— Cada vida possui milhões de caminhos que se encontram aqui no Abismo. Cada decisão te levará para algum lugar e a decisão que não tomaste seguirá seu percurso, cumprindo o destino que deveria ter seguido. Cada ação, por mínima que seja, faz parte de algo...
— Então jamais um esforço será inútil da parte de quem se dedica a qualquer ato que seja... A vida é carregada de novidades - murmurou a Rainha, deslizando levemente o indicador ao lábio, ela falava e o Gato a ouvia. O Abismo respirava e crescia, criando caminhos; criando labirintos. Vidas que ali presenciavam dos quatro cantos de Arcádia, e quem buscava as páginas que se escreviam.
— Cada vez mais eu a admiro, minha Rainha. - murmurei em minhas páginas; por ela erguer mundos e por sentir os corações...
— Você é mais que um livro, Seanchaí... Assim como seu irmão.
E assim senti um aperto ao coração da Rainha, assim como o Gato sentiria...

















1 sussurros:
Atentei cuidadosamente para os olhos do Gato, mas não os encontrava. Estão sempre a contemplar o Abismo e não há lugar para mais nada, além do próprio abismo e ceder às vontades do coração maravilhosamente corrompido de sua rainha.
Ainda assim ele me observava, mesmo que de soslaio, sem querer demonstrar preocupação mas atento aos meus passos. Não sei se por bondade, para me poupar das perdições do Abismo, ou por ciúmes, para me manter longe daquele lugar onde brincava e contemplava.
- Tem medo de revelar seus sentimentos aqui perdidos meu caro? Ou estaria aqui por mero capricho de sua rainha? Seria apenas ceder a meros caprichos ou o cúmulo da submissão?
Muitas são as perguntas e poucas respostas. Talvez as consequências por permanecer naquele local já estivessem batendo na minha porta. Pois não há lugar pior para nossos temores se esconderem do que o abismo de nossa própria alma.
Não foi por falta de aviso. "Cuidado para não se perder" ecoava na minha cabeça como o zunido de uma praga de mil moscas.
O Gato percebeu minhas indecisões e suas brincadeiras cessaram. Se espreguiçou, saltou e caminhou sem mesmo me chamar. Pois sabia que a lugar algum eu iria, além de o seguir. Mesmo que eu já tivesse percorrigo os quatro cantos de Arcádia.
Já cavalguei pelos Prados Verdejantes, onde era belo e o coração foi corrompido.
Passei pela Floresta de Espinhos, onde o coração corrompido fez derramar sangue e veneno.
Não cheguei a entrar no Palácio, invasão que não me foi permitida.
Mas caí no Abismo, onde sangue e veneno tornaram-se um rio. Seguindo os caminhos que o próprio Abismo abria. Talvez nos leve à face oculta do coração.
Túmulos, labirintos, criaturas e encruzilhadas se erguiam a medida que avançávamos. Então parei por um instante:
- Temos que avançar, não é mesmo meu caro? Pois, de qualquer forma, ela não nos concederá mais uma chance de rendição.
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