sábado, 18 de dezembro de 2010

A Escolha Está Feita...

Escolhas eram feitas por andarilhos e arcanjos que penetravam cada vez mais fundo ao Abismo de Arcádia. O Gato sabia do destino que ele tivera e aceitara seu fardo, mas se divertia ao trazer-lhe companhia na obscuridade do passado. A Rainha sabia que o Gato lhe fazia companhia, mas diferente do curioso felino, a Rainha ao Abismo pertencia. Mesmo que historiadores digam que o submundo está ligado ao reino dos humanos e as almas que lá caem não conseguem escapar, sabemos que os demônios podem vir passear nas terras habitadas pelos Adonianos. Sorrio ao lembrar a confusão causada entre adonianos e arcadianos, mas talvez esta história deva ser contada no mais tardar. Observemos o que as Moiras têm a nos falar.

O Andarilho realmente achava que eu iria o acompanhar, mas nas terras das Moiras estou proibido de pisar. Isso se deve pelo fato de minha intrusão quando estas desejaram trazer ao mundo a ultima perdição. O tormento mais poderoso foi trancafiado longe do alcance dos tolos e retornará à caixa tão cobiçada quando Pandora mais uma vez descansar. Ah! Como sinto falta de Pandora a acariciar os meus pelos, foram momentos poderosos que estive com ela em meu peito. Mas estou a devanear e lá está o Andarilho a pensar. Ele remete seus pensamentos ao que perdera em suas andanças e não possui idéia da força que lhe dá a esperança. Sorrio e mais uma vez o desafio, observando que ele não está só em sua caminhada. Sim, junto a ele, no obscuro caminho, há um Arcanjo que o acompanha. Arcanjo este malicioso, tão sombrio quanto minha Rainha. O Ceifador de destinos sabe que há muitos outros caminhos. Mas ficarei a observar.... Mesmo não trilhando os mesmos caminhos.
— Os resultados das escolhas nos acompanham desde os primórdios e o fim... O resultado de tudo isso, varia com cada um que faz sua escolha. Para seu cavalo, ele preferiu a morte, pois não agüentava mais quem estava o atormentar. Para outros andarilhos o resultado foi o esquecimento, pois não conseguiram mais me acompanhar. Cada lugar de Arcádia possui um pensamento. Sejam eles nobres, ou pestilentos... Sombrios ou inocentes... Nada consegue escapar. Quem sabe a sua liberdade que estava lá, fosse uma armadilha para abocanhá-lo? O Destino tem seus caminhos. Vá e busque as Moiras... Pois ainda tens muito a perder, ficando neste lugar.
Uma fina chuva nos agradou, salgada em suas gotas, prantos ela anunciou. A inconformação nos lamuriares, mostravam desgosto e rebeldia, mais uma alma se aproximava da eternidade de seu tormento. Risos nervosos se espalhavam, gritos cortavam corações. Olhei para cima por um tempo e ronronei ao tolo.
— Vá! Busque a angústia que sentes nessa chuva, ela o levará às Moiras.
Parti sem nem mesmo olhar para trás, sabia que o Arcanjo estava mais bem encaminhado. Corri em caminho contrário, na urgência de meu fardo. Saltei obstáculos e rasguei demônios, quase voei em minha pressa e à entrada do Abismo, pude ver aquelas lágrimas, aquela face pálida, saltando ao colo de quem me aguardava.
— Nada pude fazer... Nada pude fazer... Sinto-me vazia em meu peito por tão rápida ter me conformado. Dois se perderam, sendo que um deles se perdera antes de sua partida. Ah! Meu amado Gato, a predestinação é o pior de meus pecados...

Havia um pesar naquelas palavras e todos nós sentíamos o peso carregado na alma de quem ali pranteava. Um pranto silencioso que não possuía mais lágrimas, um respirar pesaroso de quem não mais agüentava. Víamos ali, o Gato a consolar e nossos olhares se ausentaram naquele momento de dor do nobre cavaleiro. Quinze anos completos dos quarenta e cinco incompletos.
— Ele há de descansar em paz...

domingo, 29 de agosto de 2010

Escolhas Erradas...

O murmurar do Falcão trazia um enorme pesar e pude observar o Abismo crescendo aos olhos de minha Rainha. Por um momento seu suspiro foi inaudível, mas sabíamos que os elfos negros fariam falta. O Gato, por sua vez, esmiuçava seus olhos ao perceber as atenções voltadas ao mensageiro ferido, mas sentia em seus pêlos algo mais por vir. Não tardava para que todos percebessem o aproximar das palavras tão poderosas...

— Amo a Rainha...
— Malévola...
— Aceita...
O Cavaleiro perdido poderia escutar sua primeira frase acompanhada de duas mais. Vozes que ecoavam das paredes do Abismo que ainda se deleitava com a morte da pobre montaria. O Gato, por sua vez, aumentava o sorriso malicioso em seus lábios, dando voltas no próprio corpo, e a tristeza rondava o peregrino que lhe acompanhava.
— Podes escutar isso? – Perguntou o Gato ardiloso, mantendo-se às sombras do labirinto e quão cruel era seu sorriso, pois não havia misericórdia nos acontecimentos vindouros.
— Podes sentir as vozes daqueles que se aproximam? – Finquei minhas garras ao chão, pois a história inacabada trazia ao Abismo outras almas ao labirinto.
— As respostas que desejas, lá no fundo se encontram inalteradas. Mas poderia estar eu mentindo, levando-te para outra encruzilhada. – Avanço deveras faminto, dos sonhos e das esperanças perdidas. Sim, ele ainda desejava, e com suas esperanças iludidas, atraía outros andarilhos.
— Deves correr meu caro. Pois enquanto queres respostas, a Rainha e o Abismo despertam paixão em almas mais sombrias, enquanto por outro lado os Reinos do Seanchaí convidam outros deslumbrados.
Estava claro que ele desejava mais respostas e que gostaria de saber mais sobre a guardiã e barda do tempo e das histórias contadas, fechei a saída do Abismo e apresentei um novo caminho.
— Deves deixar a minha companhia agora e buscar as Moiras que tecem os Destinos. Vá e não te demores. Deixai o passado de tua vida para trás. Caia mais fundo no Abismo e perca todas as esperanças que deixaste para trás. Mas não espere benevolência das Senhoras que tecem os fios de tua vida...

Estremeci ao escutar o Gato e o Corvo pareceu-me pensativo.
— Ele escolheu o Abismo minha senhora, teria sido ele sábio em tal escolha? – Sabia bem o que ela me responderia, mas enaltece-me as páginas ao perceber aquele sereno sorriso.
— O Gato sabe que não foi uma boa escolha a do jovem rapaz, pois por conta da mesma curiosidade, o Gato teve seu pior destino.