sábado, 28 de novembro de 2009

Trilhas

Minha Rainha ria e se divertia, mas havia algo extremamente sedutor em seu sarcasmo e sua diversão. O sadismo presente em seu olhar, em sua majestade de quem desafia, parecia manipular as trilhas por onde quer que nossoa aventureiro passasse. Não iria dar trilhas fáceis, pois árduos caminhos é que fazem plebeus tornarem algo mais. Não que minhas palavras dêm falsas esperanças, pois não sou como meu irmão Tyr Quentalë que a pintava extremamente frágil e uma mulher fácil de enganar e tolos são aqueles que um dia chegaram a pensar que minha Rainha era uma mocinha indefesa.
A ardil e infames pensamentos desses tolos, pois mal sabem a verdadeira natureza que encontraram em suas vidas infantes.

Ri, tal qual a Rainha riu. Um riso capaz de abalar as estruturas dos mais determinados homens que pensavam que haviam tocado o coração enegrecido da fada misteriosa. Os elfos punham-se ao lado da Rainha, em seus murmurares baixos que a mantinha concentrada no aventureiro que desviara-se do centro do labirinto. Talvez o centro deste reino pudesse vir a ser a salvação ou o caminho mais certo para que um dia ele retornasse ao lar de sua sanidade. Os espinhos sedentos de sangue sussurravam feitiços, dizendo ao andarilho que ela brinca e estimula os corações partidos. Mas em seus jogos de manipulações, talvez sejam os cavaleiros que não compreendam que a Rainha dá vários avisos e que não há espaços mais para sentimentos.
— Tolos eles insistem, mas não pela tolice de ver um coração alquebrado, ou por ver alguém que deve ser resgatado. Saiba andarilho, que tem veias de um bardo, a Rainha possui uma alma solitária, enegrecida pelas águas do abismo. Partes dela se encontram por todas as partes e já vi tantos elouquecerem, quanto sairem vazios do reino que o rodeia neste momento.
Pousei por um tempo para ver se o andarilho, ainda buscava pelas plumas negras que eu deixava pelos caminhos. Um truque funesto para fazê-lo conhecer os reinos doentios que nela habitam.
— Muitos ventos tentarão alertá-lo, marcando os terrenos já pisados. Mas talvez seja para seu próprio bem, ou quem sabe para devorarem seu coração.
Ela sorria, com os olhos sombrios a luzir.
— Escute o corvo, cavaleiro...
Ela murmurou pelo meu bico em um sibilar tão traiçoeiro que não deixava de encantar. Sabiamente a Rainha sabia que eu, o corvo, já vivia e que em breve o peregrino surgiria.

Minhas páginas ganhavam mais vida em meio ao sadismo da transição de dois reinos. Transição? Tolo seria se eu pensasse desse jeito, pois estaria agindo como meu irmão. A Rainha por um momento olhou-me com carinho, deixando deslizar seus delicados dedos em minha capa.
— Jamais tema meus pensamentos, Seanchaí!

1 sussurros:

jontsmascarenhas disse...

Nos vimos cansados...
Retornar me pareceu muito mais dificil do que imaginava. Como se a cada dois passos dados para frente um era dado para atrás, afundando em lama de angustia.
Ainda escuto o gralhar e risadas sarcásticas ao longo do caminho. Ergui minha cabeça buscando alguma luz na copa das árvores, mas só vejo plumas negras caíndo delas. O corvo... sua manifestação me deixou deveras perturbado!
-Sim, acabei me tornando uma presa fácil para que se bico encrave.
Meu coração palpita ao me aproximar cada vez mais do castelo e puxo dos pulmões um fôlego que me é roubado.
Reza uma lenda, que um corvo pode levar a alma para o outro lado.
Reza uma lenda - e acho que deixa de ser lenda quando se reza - que esse corvo pode trazer a alma de volta.
Mas este é o mensageiro daquela que tudo corrói.
As palavras secam do meu cantil de águas de incertezas e contradiçoes.
Resta saber oque me espera próximo aos portões do castelo dessa Arcádia decadente.
(um suspiro delongado)